Qual é a lombra?

terça-feira, 29 de abril de 2014

Puppet

Ela era uma jovem e bela moça que andava, cantava e dançava pela verde floresta que cercava o vilarejo onde morava. Cantava histórias às árvores e aos bichos enquanto dançava e colhia Orquídeas, Jasmins, Tulipas, Gardênias e tudo que era flor, afim de vende-las aos muitos viajantes que passavam pelo tal vilarejo. Eram ciganos, bardos, mensageiros, cavaleiros de reis e rainhas que a moça apenas conhecia por nome e logo depois esquecia, tal era a influência dos monarcas em sua vida. E por assim, muitos compravam as flores colhidas com tanto carinho e cuidado, e arrumadas com garbo em ramalhetes que traziam os nomes, que para os viajantes eram os de formosas damas, escritos em letras redondas. A moça pensava que a boa venda se dava pela dedicação prazerosa, delicada e cuidadosa que punha sobre o seu fazer de colher as flores, contando histórias fantásticas e felizes aos seres da floresta, dançando as canções dos pássaros, e que por isso os homens suspiravam os nomes com as narinas enfiadas nas corolas das flores, e depois se entre olhavam e riam. Mal sabia a guria que pelo caminho a Oeste do vilarejo havia antes, um tanto distante dali, um outro maior, onde à noite, usando nomes de flores conhecidas para protegerem os seus próprios, mulheres de muita ou de pouca volúpia abrandavam o fogo ardente da carne dos homens que viajavam as distâncias daquele tempo.
A moça pouco sabia do mundo que havia além do alcance de sua vista, e mesmo o horizonte pra ela era um mistério. Mas tinha a gana de um dia desvendar e conhecer os limites desse mundo, pois quase morria de curiosidades ao ouvir as histórias que os viajantes, e para ela tantas vezes aventureiros, contavam e comentavam na taverna onde fazia sua clientela. Certa vez, ouviu a história de um velho bardo, que ao tocar seu alaúde, dizia que as florestas ao redor daquela vila escondiam a morada de uma bruxa secular, quase harpia. Ao cessar do conto tocado e cantado, a moça logo tratou de dizer ao velho bardo e aos demais que prestaram atenção que aquela história não passava de fantasia, pois há muito que andava por aqueles lados e nunca havia se deparado com qualquer outra pessoa que fosse, bem menos sendo uma bruxa, e que também não havia nada ali que lhe assustasse nem perigo que lhe impedisse de colher as flores, que agora despontavam na cesta trazida em seu braço esquerdo quase que irradiando luzes e cores. O velho retrucou cantando a história de uma menina dançarina que sonhava conhecer o mundo, mas que pouco sabia do que havia em seu próprio, e que era necessário conhecer antes o próprio lugar para não se perder em mundos alheios, onde o que é real para o outro, pode ser a pura ilusão para aquele que viaja. A moça tomou essa última canção como uma afronta, um desafio, ao mesmo tempo em que tomou como um conselho de um sábio.
Logo no dia seguinte, ultrapassou o limite que tinha em seus passos e foi buscar flores mais fundo na floresta, sempre dançando e cantando histórias, agora para as árvores que acabara de conhecer e para os bichos e plantas e todos os que lhe escutavam. Fez assim durante dias e sempre voltava à taverna, a cada dia mais, com um tanto a mais de certeza de que ali não havia nenhuma bruxa ou sequer perigo algum. E foi seguindo a cada dia mais confiante e mais fundo na floresta, contando suas histórias e colhendo as flores que davam os nomes das musas de outra vila.
Esse andarilhar pela floresta já requeria pausas, pela distância percorrida e pela demarcação do caminho até onde ia, a modo de que não se perdesse na volta. Agora colhia as flores apenas na volta também, para que não chegassem murchas as que fossem colhidas antes. Andou, andou... Encontrou uma pausa das árvores. Uma parte aberta da floresta em que só havia uma leve grama que de longe parecia um tapete de veludo verde, e uma pedra em formato circular. A moça aproximou-se da pedra e estendeu sobre ela um pedaço de linho fino que trazia consigo. Sentou-se, respirou fundo e ouviu o silêncio de onde estava quebrado pelo canto dos pássaros das árvores mais próximas. Deitou-se com um doce ar de quem deita-se sobre a própria cama, e adormeceu.
Mais tarde, ainda de olhos cerrados, sentiu que algo bloqueara a luminosidade do dia de céu claro. Pensou ser alguma nuvem de chuva, mas não a típica alteração do vento que anuncia a aproximação de uma. Em vez disso, sentiu na pele estranhos calafrios, como se alguém a observasse. Então abre levemente os olhos e de súbito os arregala ao ver a silhueta escura e embaçada de um homem, que não soube na hora se era mesmo um homem ou bicho, um pássaro. Ao passo em que o coração da moça acelera, a criatura a põe sobre os ombros com penachos e anda num caminhar desengonçado para dentro da floresta. Ela grita e esperneia. A criatura apenas tem a reação de ajeita-la nos ombros para que não caia e de andar mais rapidamente, balançando mais e tendo que fazer o movimento para ajeita-la repetidas vezes.  Ouve-se dele apenas uma respiração grosseira, e assim foi pelos minutos se seguiram até chegarem ao que para a moça pareceu ser uma simples casa feita de madeira e um tanto maltratada pelo tempo. Porém a casa era escura, e a medida em que se aproximava do lugar parecia que se precipitava ali a noite que só viria horas depois, como se a noite estivesse sempre ali, mesmo no mais claro dos dias. A criatura abre a porta da frente com propriedade e naturalidade, entra na casa, fecha a porta. Ouve-se então uma voz envelhecida e estridente vinda de baixo da casa, de um porão. A voz em tom ríspido ordena que se cale a moça que ainda gritava e esperneava nos ombros da criatura. E num instante ela se cala, como se por feitiço, e talvez mesmo fosse. A criatura conduz a moça, ainda em seus ombros, por uma sala à luz de grandes velas vermelhas e brancas, que tão um tom mais sinistro ainda ao ambiente ornamentado com cabeças empalhadas de animais nas paredes. Há uma mesa baixa no centro da sala, com alguns livros velhos empilhados, dois cálices de prata, um deitado e outro não, algumas velas que mal iluminavam o lugar, um círculo desenhado com algum símbolo na parte de dentro onde também havia penas, gotas de sangue e uma adaga. Num silêncio gelado, descem por uma escada que fica na porta primeira à direita no corredor da casa, que aparentemente levaria até à cozinha nos fundos. A escuridão se intensifica no descer de degraus. A iluminação sinistra e avermelhada do lugar é recobrada pela luz de uma fogueira abaixo de um caldeirão rodeado por uma senhora de aspecto frágil, e que tinha em seus braços longos estranhas penas negras e secas. O lugar tinha estantes com inúmeros frascos contendo sabe-se lá o quê. A criatura aproxima-se de uma cadeira encostada na parede dos fundos do porão, e deposita a moça sobre a tal cadeira. A moça, de olhos arregalados, boca fechada mordendo os próprios lábios e veias que saltam no pescoço como as de alguém que grita, assiste sentada o afastar da criatura que a trouxe ali e o aproximar da velha que trajava nada além de uma saia negra e longa até os pés. Pés que possuíam garras longas e afiadas. A velha aproxima-se devagar. Caminha com passos que parecem sufocar qualquer coisa que se atreva a meter-se no caminho. Chega bem próximo ao rosto da moça, à olha nos olhos com seus olhos inteiramente negros:

- O que é que mais queres dessa vida?! – sua voz era áspera como o canto de um corvo – Tu, bela jovenzinha! Que vive a cantar e dançar por essa floresta! O que mais desejas para ti?! Diga-me! E te darei com o dom da vida eterna, mas com uma condição.

O encanto que calava a boca da moça cessou com o piscar dos olhos da bruxa ao terminar a frase. Os lábios desgrudaram e ela podia falar novamente, mas permaneceu calada por um instante. Depois:

- Que condição seria essa?
- Nos dará os anos que te resta e tua juventude, porém continuarás jovem e bela pela eternidade.

A bela e jovem moça não entendia. Como poderia continuar jovem e bonita para sempre dando àquele casal de híbridos corvos bruxos sua juventude e anos de vida?

(continua...)

2 comentários:

  1. Ficou muito bom, quero saber como! Posta mais!

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  2. Fantástico! Enredo fascinante, de uma sensibilidade e poesia encrustada belíssimas!
    J.A.F

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