Por Maely Oliveira e Jimmy Góes
A receita de bolo para o jornal
A forma com a qual falava lembrava o rugido de uma leoa, que talvez na língua dos leões formassem versos, rimas e poesias. No mesmo instante, em que ela o olhava, tinha a mesma impressão de que pássaros haviam ganhado liberdade, desenhando no céu uma quietude que deixava o azul em tom celeste. E assim acontecia na mente da Leoa. As palavras pareciam se escolher e se organizar não dessa forma convencional, como você está lendo isso agora, mas sim de uma forma a aparentasse ser a do que ela descrevia, sobre o que ela dizia no momento da fala. Espelhos d'águas em fios finos de dedos. Mãos que capturavam todos os serenos das madrugadas dos rios e podiam revelar todos os grandes mistérios da vida explicando a simplicidade do que é essência. Moviam-se, dançavam, assim dessa forma, além do hábito, por estarem em presença tão ilustre. Desejavam poder também, através de alguma dança, retirar de dentro da Leoa qualquer mal que lhe causasse qualquer dor. Ver naqueles momentos, seu riso não se misturar mais com pequeninos espasmos de dor. Doce asmática, hálito de flor colérica. Na verdade, quando ela o olhava não sabia razão, apenas cartomancear emoções. Mãos de Cigana. Ilusão de artista em uma fila convencional de espera, quase um drama teatriano.
Desde cedo conversavam sobre como parecem e se sentem invisíveis para o mundo que os rodeia. E incrível como ideias e visões diferentes sobre a mesma coisa, sem saberem, os levava justamente para a mesma coisa. Tinham um mundo sensível em comum e uma linguagem específica para falar das coisas dele, pois não conseguiam misturar o que se responde quando a pergunta é “Tudo bem?”. Para uns era “Tudo bem. E tu?”, e para outros era “Tenho sentido algo estranho esses tempos. Acho que não estou muito bem sintonizado com esse mundo da cidade. Preciso ir pro mato”. Como se pudesse jurar que naqueles minutos uma dor a atravessasse pelas fugas das costelas e em choque wts lhe impactasse a lombar, mas nos lábios dele pudesse frear tudo e ler uma partitura para oboé e piano para se tocar juntos.
- O que desejas agora? - perguntou à ela. Fera ferida, respostas lhe custavam, era mais olhos. Tinha até mais olhos que dedos. Seu olhar parecia enfurecer o castanho de suas pupilas. Silenciava gritos, fúrias como se tivesse um marte na boca. A resposta lhe foi, então, em forma de gestos.
Balançou os ombros,
lançou lhe um olhar de baixo à cima,
esboçou o sorriso da obra de Da Vinci
e então deitou-se a frente dele,
como se quisesse carinho.
Trapaças de musa infiel para um artista maldito. Entre cio e febre - ela mantinha a mesma postura de fêmea, entre desejos e sentimentos adoecidos. Amundiado nas teias dela, continuava como pintado, acrílico em tela, num azul anil sofrendo uma pincelada brusca de Van Gogh de um marrom pueril daqueles dos troncos harmônicos da árvores que ou Buda ou Dalai Lama meditava na paisagem de um quadro. Mas o Pássaro já bem conhecia esses truques. Nem todos, mas tantos, sutis, limpos, serenos e amáveis. O encantava perceber cada um deles e se perder nos novos, os que não conhecia. Ronronar. Tinha estalos no peito, lhe pulsava mortes nos dias que mais lhe faltavam vida. Poema pneumático pós-moderno, mas ainda romântica há XVIII séculos de melancolia.
Quisera os deuses querer desvendar tais mistérios, mas acho que (como voz interlocutora do autor) até para eles seria difícil, mesmo com toda a eternidade de vida. Mais provável que fossem seduzidos primeiro.
Na verdade era o portal escarlate que se abria em cada fenda de dor que ela expelia do peito ao tossir. Distância pequena entre o fim da Morte e o início da Vida. Há, por isso, mistérios entre Ela e os Deuses, que nenhuma eternidade irá explicar.
Horas se passam, começam jogos aos sons de algo que foi belamente ampliado pelo prazer de comer o bolo que comeram. Abrem-se as portas do céu numa conversa de assunto indefinido. Os olhares atravessam e vivem nas mentes dos dois a sensação de se viver lá, mas lembram dos corpos imersos na “realidade” e voltam para o plano cruel. Interminável. Indeterminável. Ficou decretado pela ordem da impressão oficial, o conto foi embargado. Os dois escritores são na verdade apenas pássaros que esqueceram em algum lugar o fado de voar. Estranham a biologia alimentar dos humanos e a forma cruel deles se relacionarem.
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