Por João Urubu
Para o meu amor e tudo o que ele suporta.
Para o “portanto”.
No intermédio dos instantes a porta se abre
Enquanto um cala e o outro consente
- Com o outro sente -
A cabeça desaba devagar por sobre os ombros
Que cansados do dia relaxam sob a cabeça relaxada.
Não há peso morto em dias a dois.
Sendo – os dois – o dia.
Não há peso morto em amar.
Amor plano plana. Não pesa.
Desarmados os dois
Deitados um sobre o outro
Se fundem na origem que eram.
São.
Eros-velho pousa n’Afrodite pálida.
Assim se querem bem.
- Descalça as asas, Eros – Diz Afrodite – descalça as asas que aqui podes simplesmente ser ultrapassado.
Os anjos bebem.
Deus ressona.
O Diabo sonha cordeirinhos.
- Nosso amor nasceu cansado, Afrodite, por isso repousa no plano sem medo. O medo existe pra que possam esquecê-lo... Vem, Afrodite, vem cadavérica que aqui podes simplesmente ser indesejada.
Os olhos piscam – não os míticos, mas os antropofágicos – lentamente.
Qual foi a quimera que almejou o amor?
E a tragédia?
Os dois, fundidos, existem.
Esse amor os contempla.
Ela vira-se inteira.
- dos dois modos -
Sorri e exclama, balbuciando:
- Eu gosto de ti.
Ele soletra:
- Verbo-te no infinitivo. Para que te tornes infindável.
- Dança comigo?
- Eu já estou dançando.
E antes que esse momento – quase imperceptível – entre os instantes findem, o poema mais belo escrito se consagra, os amantes se olham com a certeza da emboscada.
Não há para onde correr.
São tantos haveres que não valeria a pena citá-los.
Os olhos os dizem.
Mas olhos não se lêem em letras.
Foda-se a poesia.
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