Qual é a lombra?

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Texto Incompleto




Parecia já ser o suficiente a pessoa e o lugar. Estávamos deitados na areia da praia às, sei lá, duas da manhã. Nos encarávamos sem dizer uma só palavra, até que:


- E quando a companhia ultrapassa o momento em que o tempo se faz um presente de si mesmo pra aqueles que vivem de maneira tão intensa? Se faz uma homenagem? Uma canção para eternizar as coisas de fato? Se tira uma foto? Enfim. O que a gente faz?

- A gente torce pra que o sol custe muito a nascer, a terra custe muito pra girar e pra que a consciência não se dê conta do mundo acontecendo, que nem como você diz naquela música que você fez pra aquela outra fulana. – rimos por um instante e depois ela continua – Se eu pudesse, suspenderia esse momento naquela estrela ali. Tá vendo? E viveria isso de novo, noite após noite, após noite, quantas vezes eu quisesse, atééééééé... Ficar velha e...

- Ficar velha e o quê?

- E morrer de tanta felicidade.

- Caramba! É impressionante como tu consegues responder essas perguntas que eu te faço. Tens uma calma tão grande e um reflexo incrível. É como se eu de repente jogasse em ti vários objetos diferentes, com muita força, e tu pegasse todos eles no ar e fizesse malabarismo com eles. Ou, tipo, como se eu te jogasse uma pedra bem grande e pesada, e tu de olhos fechados fizesse um movimento no qual tu te esquivas ao mesmo tempo em que agarras ela como se ela fosse um bicho de pelúcia ou coisa parecia. Engraçado é que as tuas palavras parecem bem isso mesmo: Bichinhos de pelúcia. Pra cada tom tens um “ursinho carinhoso”.

- (ahuahuhauahuahuahua!) E você acha que não me encanta quando fala desse jeito?

- De que jeito?

- Desse jeito. Descrevendo o jeito que eu falo. Eu só respondi uma pergunta e você parece que sente textura nas palavras.

- (hauhauahuahua!) Deve ser porque eu sou músico. Entendo tua voz pelos tons. Pra mim é como se tu dançasse sobre as ondas do mar enquanto falas. É impressionante. Me vem umas imagens na cabeça que NOSSA! Queria poder projetar elas no céu pra tu veres.

- Mas eu talvez consiga ver. Me conta como elas são. Eu imaginei o que você disse, até me senti dançando nas ondas. (rsrsrsrsrs!)


Então me virei para o céu e fui visualizando uma coisa de cada vez. Primeiro as cores em movimento, depois as formas. Mas mal comecei a descrever as imagens e ela já me veio com um beijo que jurei por um instante ter calo também o mar. E ainda com nossos lábios colados, ela segura minha mão e inicia um passeio pelos rumos da imaginação.

Tentei ignorar o tanto de álcool que havíamos ingerido e a brisa do charuto que estávamos fumando parecia ter muitas horas, até que, por fim, viajei com ela para muitos lugares. Lugares que eu achava serem apenas meus há muito tempo, mas que eram mais reino dela do que meu.
Como uma rainha em Terabitia, mostrou para mim lugares dos quais eu sequer imaginei existir e que por ventura ousei desafiar os limites, mas ela vinha, me segurava e guiava com a solenidade e delicadeza de uma dama, que conhece bem os bosques por onde anda, mesmo que clandestinamente, longe de seus pais e de qualquer responsabilidade imposta.

Era uma senhora arqui-inimiga do tempo. Fazia com que horas, minutos e segundos se tornassem dias, meses e anos, sem mais nem menos, com histórias que só caberiam mesmo no céu, que era onde ela me mostrava ilustrações em movimento dos causos que contava.

De repente ela para. Olha pra mim, me encara em silêncio. Naquela hora parecia que tudo ao redor estava a espreita e esperando o próximo movimento. Ela havia parado no meio de um dos mais sensacionais contos que já ouvi e estávamos todos esperando pra saber o que viria depois. Eu, o mar, o céu, as estrelas e até as nuvens que passavam, parados ali para ouvir o resto do conto. Foi quando de súbito ela se joga sobre mim e me beija mais uma vez. Seu corpo saltitava levemente sobre o meu, e uma gota quente que caiu sobre meu olho esquerdo, do que eu sabia não ser chuva e nem água do mar, me deu a certeza daquele silêncio quase infinito, quebrado apenas pela respiração e pelo som do coração que era dela, mas que eu sentia bater forte no meu peito como se fosse meu. Chorou...

Um comentário:

  1. Teu texto carrega uma simplicidade latente, que se expressa de uma forma absurdamente harmoniosa.
    Adorei. Curti. Recomendo.
    Beajos.

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