Qual é a lombra?

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Pela Primeira Vez


Lágrimas, lágrimas, lágrimas, mais, mais, mas cada uma feita por um sentimento diferente. Muitas de saudades, outras de tristeza, arrependimentos, dor. Não necessariamente cada uma foi de um sentimento diferente, pois houveram muitas por pessoas das quais sente saudades. Caiam sem aviso e sem nem mesmo mudar a expressão do rosto dele.

Enquanto cantava a canção que fez, lembrou cada momento de quando a cantou pela primeira vez para aquela que foi a sua terceira e mais importante musa. Lembrou que suava de nervosismo, pois naquele momento se declarava com o maior cuidado possível para ela na frente de alguns de seus amigos e de um “namorado” que ela tinha na época. Lembrou que foi uma ótima noite, que amanheceu o dia e só restavam os dois acordados, ele e a musa, que conversaram por um breve instante antes dela convida-lo para descer da varanda onde estavam, que para ele mais parecia a varanda do quarto de uma princesa em seu castelo, para irem tomar o café da manhã, mesmo que ela não tomasse café e nem ele. E as lembranças foram surgindo, e as lágrimas caiam à medida que isso ia acontecendo. Eram lágrimas de saudades. Saudades daquele tempo em que tinha todo um mundo novo para descobrir e que esse mundo estava nas mãos daquela por quem havia se apaixonado. Também eram lágrimas de saudades da convivência que tinham, quando vivia o que estava vivendo com ela após aquele dia em que se declarou. Foi aí então que ele se lembrou de algo que não queria. Lembrou que depois de pouco tempo com ela, ele olhou para frente e viu um futuro onde eles ainda estavam juntos, casados, com filhos e netos, um apartamento no oitavo andar, um sobrado em qualquer lugar desde que fosse antigo, uma casa com formas arredondadas do jeito que ela gosta e toda aquela felicidade que contam nos contos de fadas. Lembrou-se de todas as palavras que escolheu dizer nas horas erradas, e de todas as palavras erradas que escolheu dizer nas horas erradas, e que nas horas certas em que devia ter feito alguma coisa ele não fez quase nada, e que quando fez já era tarde demais. E ele então começou a chorar lágrimas de arrependimentos, pois havia a perdido para sempre.

Desejou ter várias vidas para fazer escolhas diferentes nos momentos em que teve de escolher entre fazer/ dizer uma coisa ou outra, mas não tinha por perto nenhuma lâmpada mágica ou gênio, ou Deus ou diabo que pudesse realizar esse absurdo. Também não tinha por perto nenhum de seus amigos e nem ninguém que pudesse lhe consolar ou dizer que isso iria passar. Então chorou lágrimas de solidão. E a solidão nunca lhe doera tanto quanto naquele momento. Ele pensava já ter se acostumado a viver tão só, mas nos momentos em que mais se sentia assim sempre ouvia a voz de sua mãe falando de qualquer coisa pela casa, ou os sons das brincadeiras de algum de seus gatos de estimação, ou até mesmo tinha a companhia do único felino que respondia ao seu chamado e que fazia questão de seus afagos, a Pituca, por ele chamada de “Pipi”. E quando olhou em volta e viu que estava há milhares de quilômetros de distância de qualquer um que ama, sentiu de verdade o que é a solidão.

Com medo de preocupar aqueles que o tem algum apresso, optou por continuar tocando e cantando as últimas canções que fez para a última musa de sua vida, quando as opções eram ligar para alguém ou continuar tocando e cantando. E num tom de despedida gravou-as e guardou-as, aguardando o momento de entrega-las ao mundo e às pessoas que quiserem ouvi-las.

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