Qual é a lombra?

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Coroco

Numa de minhas viagens internas, encontrei uma casa isolada à beira de um rio gelado, numa espécie de praia de pedras. Era uma casa simples de madeira com uma chaminé, um cômodo apenas, algumas pilhas de madeira do lado de fora, provavelmente a lenha que alimentava o fogo do fogão e aquecia o ambiente daquele tão aconchegante lar no meio do nada. Residia ali um velho coroco, de barba branca e curta. Não gostou de me ver por ali, mas tive que incomoda-lo por alguns instantes, pelo menos para saber o porque de escolher aquele lugar para morar, além do motivo óbvio, é claro, de ser aquele lugar isolado um lugar isolado, longe de todos que viessem a perturba-lo como eu estava prestes a fazer.


- Bom dia, senhor! - o cumprimento simpaticamente.

- Bom! - com voz rouca e grave, ele me responde.

- Tudo bem? - ao ouvir essa pergunta, o velho ri como se o riso fosse só um único soluço e para, com um leve sorriso irônico.

- Sim!

- ... Bonita sua casa. Posso entrar pra me esquentar um pouco desse frio? Vim de longe e cheguei aqui meio que por acidente. Tava passeando sem rumo pela essência dos 24 e vim parar por aqui. Não vou demorar. Quero visitar outros lugares depois daqui.

- Hum! Ok. Não tem muito mais o que ver depois daqui, mas entre. Fique à vontade, mas não muito. Já vou lá. Tem café e um pouco de fumo lá dentro. Já vou preparar pra gente.


Então entrei e respirei um ar familiar. Realmente aquele era um lugar onde eu quereria estar quando velho. Lembrava o interior do "Magic Bus" de "Into the Wild", mas um pouco maior, quadrado, limpo e um tanto organizado. Era possível perceber os diferentes ambientes do espaço como mini universos, ainda que fosse tudo bem simples e pequeno. Havia um espaço para ler e escrever, um fogão simples à lenha que também funcionava de aquecedor, bem como imaginei, uma cama perto da janela com uma mesinha de uma gaveta só ao lado, com alguns livros sobre ela, um abajur, óculos e algumas fotos de pessoas que eu acho que conhecia. Havia também um armário onde se guardava canecas, pratos, talheres e outras coisas como temperos e enlatados, que lembrava o que sempre houve nas casas das minhas avós, um tapete antigo no meio do que seria a sala e uma mesa de madeira simples, com apenas duas cadeiras. Sobre a mesa, uma cafeteira, um cinzeiro e um porta-retratos com uma foto de um par de olhos castanhos puxados. E isso foi tudo que pude ver antes de ele entrar.


- Senta aí na mesa. Não na mesa, né? Na cadeira. Tu entendeu.

- Sim. - e sentei. Ele foi até o fogão, pegou do armário uma lata com pó de café e começou a prepara-lo. Já havia uma panela pequena com um pouco de água quente. Ele só fez pôr café na água e despejar no coador.


- Toma. Tá sem açúcar. - e como se tivéssemos ensaiado, ao mesmo tempo nós dois falamos - Assim que é bom! - Foi o melhor café que tomei na vida. Pude enfim tomar um bom gole de café logo após ter sido preparado sem me preocupar com estar muito quente pra mim ou não. Sempre tive que esperar esfriar muito quase qualquer coisa que pusesse na boca, por causa da minha sensibilidade a coisas quentes. E era impressionante o quanto as coisas aconteciam bem. Era como se tudo acontecesse na velocidade do pensamento. O Tempo era só um detalhe com o qual ninguém tinha que se preocupar. Nenhum animal na natureza se preocupa em saber que horas são e quanto tempo falta pra algo, então porque aquele velho ali longe de tudo e de todos deveria se preocupar. A água fervia sem evaporar.

- Muito bom esse café!

- Eu sei. Demorou um pouco pr'eu aprender a fazer assim, mas aqui há tempo pra tudo. A mãe sempre dizia. Acho que ela nunca soube que a parte da bíblia em que se fala sobre isso, o Tempo não é tratado como algo que se pode dividir, e sim como o que se tem pra fazer o que quiser. Não existe o tempo disso ou daquilo outro. Existe o Tempo e o que você quiser fazer.

- Sim! Penso da mesma forma.

- Sim.

- ... Então. Porque esse lugar? O que tem aqui? - nesse instante, acendeu um cachimbo, então acendi o meu.

- Aqui tem o que não tem. Aqui tem a falta de gente me perturbando, aqui tem a tranquilidade que eu não tinha no meio daqueles barulhos infernais da cidade e das pessoas, aqui tem o silêncio que eu preciso pra ouvir as milhões de canções e sinfonias que tocam na minha cabeça o tempo todo, enfim. Aqui não tem ninguém pra me aturar ser chato pra caralho e isso é bom. Não quero ter que ser aturado por ninguém.

- Uma vez um professor de matemática, acho que indignado e incomodado com a (como posso dizer?) "mecanicidade" (nem sei se essa palavra existe) da turma em responder as perguntas, principalmente aquela básica que é "Entenderam?" e todo mundo responde meio que automaticamente "Siiiiiim!", mesmo sem ter entendido porra nenhuma, disse algo que levei pra vida inteira. Não lembro bem ao certo o que ele disse no discurso, mas era algo que envolvia o fato das pessoas não se perguntarem nada antes de aceitar algo como verdade. Ele disse que sentia falta de quem lhe chamasse a atenção e perguntasse "Professor! Mas porque isso?". Isso nunca mais me saiu da cabeça. Desde então, venho me perguntando "Mas porque isso?" pra quase tudo que posso, e faço essa pergunta pras pessoas, pra poder entender melhor as coisas. Então, voltando ao que a gente tava falando antes e sem querer ser abusado, por favor, mas porque isso de não querer ser aturado por ninguém?

- Muito bom. Podes pensar que pode ser até saudável a gente ser aturado de vez em quando por alguém, pois temos, como pessoas, momentos em que estamos em desequilíbrio mesmo e tudo mais. Sei que entendes isso. Sabes também que posso justificar minha escolha de viver aqui isolado como uma escolha minha e apenas isso, pois estou dentro da minha liberdade pra fazer o que bem entender da minha vida, assim como tu estás dentro da tua de fazer o que bem entendes da tua vida, certo? Bom, mas o que me fez mesmo chegar até aqui é o seguinte: É foda ter que se esquivar dos problemas e loucuras dos outros. Pior ainda é ter que chegar a esse ponto. Eu simplesmente cansei de dar atenção a quem só quer isso. As pessoas estavam muito carentes ao meu redor e ninguém conseguia se resolver sozinho. Era foda ter que lidar com gente querendo se matar, fazendo o maior carnaval do mundo usando o suicídio como enredo principal, colocando como carros alegóricos os seus problemas fúteis e conflitos egoístas. Eu mesmo me predispus a passar por isso uma vez quando namorei uma louca com a qual tive uma história linda. Fiquei fodido, mas quase ninguém soube que foi mais de propósito do que de "verdade", por assim dizer. Afinal, eu já meio que sabia que aquela garota tava mais pra ser minha próxima decepção do que o amor da minha vida. Enfim. Sofri, pedi ajuda, pedi atenção, fui uma criança tola o quanto pude, e depois, quando vi o quanto aquilo era desnecessário e estagnante, parei com essa frescura e segui a vida. Me dei de exemplo pra todo mundo que veio me procurar por motivos semelhantes depois disso, mas pareceu que quanto mais eu lhes indicava um caminho de sair daquela merda, mais eles queriam se mergulhar, e eu sentia culpa por achar que não estava ajudando. Sim! Eu não sou e nem nunca fui a pessoa mais compreensiva do mundo! Mas eu entendo que cada um sabe das próprias alegrias e dores como ninguém. Tomar um sorvete de chocolate não trás a mesma alegria pra duas pessoas diferentes, assim como tem criança que chora ao cair e tem criança que não tá nem aí. Mas porra! Parecia moda sofrer e continuar sofrendo. Se fazer de leso e se achar o caralho. Além de muita gente se tratar como descartáveis. Enfim! Eu não poderia querer lugar melhor pra viver que não esse aqui. Não preciso dar minha atenção nem meu desprezo pra ninguém. Deixo isso pra quem continua lá. Não preciso também que ninguém me dê atenção além da conta. E quando preciso de um pouco de atenção, alguém vem aqui me visitar. Obrigado. Tem mais café aqui. Pode tirar pra ti o quanto quiser.

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