Qual é a lombra?

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Página rasgada de um livro escrito à mão achado na calçada em frente a um asilo imaginário

O que fazer? O que acontece quando a tristeza é em nós? Digo, nós, seres que tem a capacidade de geralmente dispersar a tristeza alheia de vossos corpos e corações. O que acontece quando ela nos atinge?

Fecho os olhos, deito em posição fetal e sonho sem dormir. Vejo a vida com efeitos especiais. A visão de alguém sentado no chão, olhando através de uma janela luminosa a vida sendo linda acontecendo sem ele, distante dele, com as pessoas com quem queria estar, suas paixões, amores, amigos, em lugares, situações, imaginando até os que não pode ver e pensando no quanto queria ter uma vida interessante o suficiente para que não tivesse tempo de pensar besteiras. Atrás dele o tempo passa voando devagar. Está escuro ao redor e tudo que consegue ver é isto. Pensa como chegar lá. "Como chegar lá? Como ter uma vida bonita assim? Como ter uma vida? Por que eu não sou tão interessante? O que me falta pra que surja nas pessoas vontades de conversar comigo durante horas e horas?". Daí então surgem dúvidas a respeito de seus desejos recém nascidos. Pensa "Mas será mesmo que é isso? Vou querer ficar só, eu sei. E se não me deixarem em paz? Deve haver alguém no mundo que quer esse momento de agora, que quer trocar de lugar comigo, sem viver essa dor, essa dúvida, claro, mas quer trocar porque não aguenta mais as pessoas. Não?". O que se torna a vida para quem vive o que os outros desejam viver? Talvez uma grande chatice. Mas o afã no coração revela ao inerte meditando a resposta de uma dúvida simples: Sim e aceite, eis a resposta.

O caos na mente - estas palavras nesta ordem já devem ter sido escritas tantas e tantas vezes e em várias línguas - do jovem inibe-lhe os sentimentos por outras pessoas quaisquer e por ele próprio. A ideia de ser amado trás-lhe uma dúvida cruel.

- Até quando? - E começa um grande dilema. Não sabe onde estão os próprios sentimentos dele agora. Se com outra, se com esta, se não estão em lugar algum. Sente que é incapaz de por muito tempo amar de fato uma pessoa. Mas reconhece que o que de fato acontece é que sabe livrar os outros de si próprio dando-lhes a liberdade para que não haja sufocamento. Pergunta-se se isso é amar de fato. A resposta vem de imediato:

- É meu jeito de amar.

Cada ser tem um amor e isso, o sentimento, não como o nome (mesmo em outros idiomas), é mutável, variável de ser para ser. Todos reconhecem alguma misteriosa convergência de essência desse sentimento nos outros, mas a forma de como se manifesta e como cada um reage a isso é diferente em todos nós. As projeções criadas pela mente a respeito do que se sente, por quem se sente, pode ser que sejam também puras armadilhas do lado racional, que preserva os seres das dores dos sentimentos como decepções e frustrações, assim como nossos instintos nos preservam do perigo e da morte. O cérebro monta um sistema complexo de defesa para nos alertar e guardar das dores que os sentimentos nos causam. Muitas vezes confundimos isso com outras coisas quaisquer e talvez sejam essas outras coisas quaisquer, afinal de contas isso tudo é só um pensamento aleatório de um velho babão numa cadeira de balanço, mentalmente fumando seus cigarros e tomando seu café sem açúcar.

"Que masoquismo! Mas é isso também que dá graça a vida. É o tempero de tudo... Um dos. E viver? Bom, só temos essa chance. Não desperdicemos... E não será desperdiçada, por mais que você tente. Até que você se mate, viveu o que tinha que viver e aproveitou talvez sem perceber."

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