Qual é a lombra?

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

1915

     Uma volta pelo comércio, cedo demais para as lojas estarem abertas, um banco vazio de uma praça suja parece uma boa sala de espera para ser atendido, como se fosse uma patologia a falta de roupas no armário. É que o que faltava mesmo era a disposição necessária para acordar cedo e ir a um brechó que fosse. Daí como castigo, teve que esperar as lojas abrirem por ter chego cedo demais. Mas que de castigo mesmo só teve uma leve sensação inicial, pois a partir de uma imaginação quase que de uma criança, com referências adultas e a pré-disposição para fantasias e fantasiar como a de uma pessoa do signo de Peixes, logo enxerga aquele cenário de outra forma. Eram casarões antigos, coloridos, lindos, ruas de paralelepípedos, uma igreja bem grande. Fora isso haviam barraquinhas de artes de ferro com compensado e lona, postes cheios de fios, camas de papelão, lixo e pessoas que... Pessoas que pareciam recicláveis, recicladas, descartáveis, descartadas, tristes tristes ou sorridentes, vazias...

     Bem. Uma postura natural para as coisas da vida fez o observador começar a ignorar a vista do que considerava ruim dali. Ignorou o lixo, os postes, as barracas, as lojas, as pessoas. Foi "desvendo" tudo aquilo e aquilo tudo foi sumindo como se no tempo ele voltasse em passo acelerado. Até que finalmente teve uma visão da ideia de como seria aquele lugar há mais ou menos uns cem anos atrás, ou pelo menos como seria aquilo tudo sem toda a modernidade e tecnologia dos últimos cem anos. Um leve sorriso então começava a esboçar-se no rosto do observador sem que ele percebesse. Imaginou tudo, primeiramente, vazio. As pessoas foram adicionadas aos poucos, com suas roupas bonitas e garbosas ou esfarrapadas, suas falas rebuscadas e gírias de malandro num murmurinho até um tanto mais delicado que o do mundo real. E foi engraçado. A reflexão sobre o tempo que perderia tornou-se um momento tão bonito a cada segundo... Algo comparável à presente lembrança de quem lhe viera a mente naquele instante. Se imaginou em meio a esse cenário de época, sentado ao lado de uma moça dona de um par de olhos brilhantes, mas antes que se perdesse nesse êxtase tranquilo advindo de devaneios justos ou não, uma senhorinha vestida em trajes que desconversavam com todo aquele universo aproxima-se vagarosamente, carregando uma grande bolsa e algumas sacolas plásticas. O cenário todo volta a ser o que era antes, mas a senhorinha, como num lampejo de alegria, torna mais bonito o mundo cinza das manhãs de janeiro no comércio, num gesto muito simples. Como se quisesse muito se livrar de algo, com um grande sorriso no rosto, tira de uma das sacolas plásticas alguns pedados e migalhas de pão e as joga para o alto, para caírem no chão ao alcance dos pombos e dos demais pássaros que por ali pousarem. Anda mais um pouco, cortando a tensão do olhar de um senhor sentado num banco a frente ao do observador, por chamar a atenção para si com uma gata prenha chamando a atenção dela, miando. Em resposta à gata, a senhorinha balança um copo de água mineral sem água mineral, com um pouco de ração e pedaços de carne dentro, e as espalha por uma certa área às patas da gata prenha, e essa se cala comendo. Circula mais um pouco pela praça. Parece procurar um outro gato para alimentar, mas não o encontra. Fala coisas e sobre coisas que ninguém entende, com pessoas que ela nem conhece e vai embora.

     Alguns segundos de paralisia... ainda com aquele sorriso em esboço no rosto, agora já com um sentido meio besta...

- Deu a hora. As lojas já devem estar abertas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário