Acho injusto comparar as fugas, mudanças ou seja lá como for chamar. Foram diferentes demais e coloca-las como iguais quase desonra a outra.
Fui.
Até tua casa, entreguei-te os livros,
ouvi tuas histórias pela metade e vi tua vontade de contar.
Descobri que sou magro demais e isso te incomodava.
Vi teu desdem e teu adiós.
Fui.
Daqui me perguntastes se eu estava bem. Naquele momento específico por muitas coisas que se citadas dariam páginas de livros e dentre os motivos um era a distância não física, mas afetiva que impusestes por sei lá, respondi "Não".
- E aí, cabeçudo? Estás bem?
- Não.
- Ixe! Tá. Tchau!
...
Em outras "conversas" te fantasiavas categoricamente de onomatopeia ecoante, e quase como num golpe de tortura respondias qualquer pergunta com "Aham" e "Que?".
Voltei.
Renasci, mas a cicatriz roubou meus sentimentos.
Não existia dor, alegria ou medo.
A Vida foi cruel e paguei na mesma moeda com ajuda do Tempo.
Surge a aliança e a Lua sorriu pra mim.
Voltei.
E caguei pra tua preocupação.
- Onde estás morando? Estás comendo direito? O que estás fazendo da vida, rapaz?
- ...
Vida, vinda em passos leves e lentos revela o Amor brotando da semente jogada no passado. O Tempo mostra acontecimentos, atos, coerentes com o sentir das coisas e a Lua soube que era mútuo quando acompanhou o andarilhar sem rumo daqueles dois seres que só se tinham assim. Às claras foram capazes de se satisfazer sem intenções ou interesses. Sem medos, foram confidentes, foram amigos, foram felizes. Nada que pudesse os separar deu certo pra isso. Nem olhos de corujas, nem palavras armadas de facas imbuídas em sangue e esperma, nem ser mudo, surdo, cego, nem nada disso. Uma guerra que tinha tudo para ser a mais sangrenta, não pôde nem ser fria pois todas as armas falharam. Lhes restou o abraço.
Despercebido o Tempo passa muito rápido e o Vento que o segue bagunça todos os papeis e neles as letras e os textos escritos. Em essência continuam iguais, mas a rotina cai por terra em camas alheias e ouve-se pelas primeiras vezes gritos entre bananeiras numa escrevinhadura. O anúncio claro de uma nova prioridade. Um disfarce.
- Vou mudar pra lá.
- Pra quê?
- Mestrado.
- ... Sei.
Enquanto em outro reino onde as palavras são menos desperdiçadas, tua voz gritava como sempre os tons de todos os inícios. Sem surpresas, apenas decepções.
- Dessa vez farei que nem tu.
- O que vais fazer?
- Vou viajar.
[...]
- Só fostes pra lá por causa desse cara?
- Não foi só por causa dele.
- E usastes como inspiração a minha ida? Deturpando toda a minha ideia? Estás ficando doida?
- Tá bom, tá bom.
- Quando eu fui daqui foi por um motivo muito diferente! Não foi por causa de ninguém além de mim! Até tinha quem encontrar por lá, mas já sabia que ficaria sozinho em pouco tempo e tinha isso planejado. Fiquei isolado no mundo e cresci com isso e tu diz que fizestes que nem eu? Eu tava numa fossa FUDIDA (com U mesmo, que assim é mais forte) e tu termina com teu namorado pra semanas depois viajares pra sentar na pica de outro cara e dizer que fizestes que nem eu?
O Amor era inocente. Como uma criança mesmo, mostro-se imaturo. Foi confundido com Ódio e por vezes jurou que era o próprio. Enlouqueceu e teve que ser levado numa camisa de força para uma sala acolchoada num dos cantos de acesso restrito nos seres.
- Não sei mais nem se eu vou.
[...]
- Tenho pensado muito em suicídio.
[...]
- Ele não presta e eu também não. Acho que ele seria um bom castigo.
[...]
- Ele fez merda. Eu também fiz merda.
[...]
- Eu também te amo.
Entre palavras duras como pedras e frias como o gelo, gritos de socorro eram direcionados ao carrasco.
- Muito obrigada.
[...]
- Muito obrigada pela visita.
Olhos nos olhos as amarraduras da camisa de força ficavam mais frouxas. Peito no peito o pulso dos corações encontrados, as respirações, as vozes, os silêncios, libertavam sem esforço o Amor enlouquecido, fazendo os guardas do sanatório dormirem com a paz daqueles abraços.
E o Amor enlouquecido, confuso e confundido, volta ao sanatório às vezes por conta própria, por um velho ciclo viciado. Mas num abraço ele reconhece e agradece a paciência e todos os seus cuidados, e aprende com erros a ter um tanto da sabedoria de um Amor maduro e são. Um abraço, que foi-se embora.
O amor esse covil de loucos, esse danço mesmo sem saber dançar, esse cantar fora do tempo das músicas. O mesmo amor que morde e tira sangue faz a gente sentir saudade de arder, nunca entendo, acho que vamos morrer sem entender.
ResponderExcluirEu choro lágrimas de sangue que meu coração dilacerado bombeia. Sempre entre às meia-noite e às três e meia, uma brasa dentro de mim queima e de tempos em tempos me pergunto: Até quando vou sentir tanta saudade disso que foi tão bom e tão ruim?
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