O tempo passa depois de parar algumas
vezes por conta de um olhar mágico que produz esse efeito. Tudo ainda é tão
inacreditável quanto o primeiro instante de permissão concedida (um sonho), só
que agora uma paz maior impera, mesmo que ainda haja a dor que faz esse olhar
mágico às vezes se perder nos horizontes das avenidas, de volta pra casa. A dor
também brada aflição e desespero ao julgado louco por encantar-se com coisas
chatas. Talvez por achar-se velho, o chato torna-se algo mais interessante, pois
traz sossego. Mas ele não sabe ainda como lidar com a dor. Sente-se um espelho
refletindo a imagem daquela moça que atravessa as ruas sem encostar nos outros,
e segue, anda, pois é o que pode fazer. Mas tem vontade de carrega-la de uma
ponta à outra das cidades e deixa-la na porta de casa sã e salva. Não entende a
própria vontade até perceber que odeia essa caminhada silenciosa rumo às
palavras de despedida, e que odeia despedidas.
O tempo volta, agora na memória do velho
louco, tornando os passos um mero detalhe. Há horas atrás um casal de velhinhos
os cumprimenta como conhecidos, no caminho para Wonderland. A senhorinha
exclama com admiração “Mas que belo casal!”. “Talvez os limites do reino tenham
se estendido para além da toca do coelho. Maravilhas assim nunca me aconteceram
antes.” – olhando para Lua, ele diz a si mesmo em pensamento – “Mas ela é linda
mesmo”. Ao chegarem na parte conhecida do reino, ele encanta-se com tudo o que
ela faz. Quando cumprimenta os grandes felinos guardiões, quando pede permissão
à mãe de um deles para pegar um recém-nascido no colo, quando bebe de um copo pequeno de
água só a metade, quando se sente à vontade. Calma e sossego num abraço
apertado e avistados naquele olhar mágico que faz o tempo parar por um tempo,
que faz a vista enxergar somente à ela, e que emudece o mundo deixando audível
apenas a voz de tom tão doce quanto o cheiro da moça dizer que esteve com
saudades. E segue lembrando dos muitos abraços e das declarações feitas. Lembra
do choro e das risadas vindas às vezes do nada, e de como se sentiu bem
pelos dois. Sentiu-se confiável e confiante. Lembrou-se do rito do fogo, da
ânsia e do sangue. Lembrou-se que o tempo passou e ninguém percebeu, dos planos
feitos, da expectativa versos a realidade, da espontaneidade, felicidade. De
tudo que houve, lembrou-se até chegar ao momento presente... silencioso,
sozinho, cansado, aflito e triste. O loop do retorno.
Cartas da pessoa
número três: O Velho Louco
O velho louco é dotado de uma imaginação
fantástica. É capaz de criar interações entre o que vê e imagina, alucinando
com consciência e rindo como um louco, como é de se esperar de um louco. Avista
um prédio de medianeiras enormes e imagina equações de fórmulas absurdas sendo
feitas nelas. “(Em Wondeland) ‘tempo + momentos felizes = tempo/10² = vou
chegar atrasado’, ‘tempo + 2 x momentos felizes = tempo/2 x 10² = não vou mais
pra lá + 1 (quase) dorme aqui hoje?’, ‘tempo + 2 x momentos felizes + trabalho
pra fazer = já são oito horas?!’.”
Imaginou o prédio como uma imensa balança de
libras e colocou, ao mesmo tempo, de um lado os valores dos resultados
das equações de o quanto se sente bem e feliz ao lado dela (no mundo da Lua), e
do outro colocou sua tristeza vã e chata ( :p ), para saber qual valia mais. Os
moradores em seus apartamentos passaram por um grande susto. Logo chegou a
impressa local para noticiar o fato ocorrido no dia 12/04/2014. Um prédio de
mais de vinte andares tombou para o lado da felicidade. Ninguém saiu ferido e o
prédio continua intacto. A empresa responsável pela construção do edifício irá
reergue-lo essa semana. E o velho louco sorri.
(Pinguins no pais das maravilhas)
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