Qual é a lombra?

domingo, 13 de abril de 2014

De volta

     O tempo passa depois de parar algumas vezes por conta de um olhar mágico que produz esse efeito. Tudo ainda é tão inacreditável quanto o primeiro instante de permissão concedida (um sonho), só que agora uma paz maior impera, mesmo que ainda haja a dor que faz esse olhar mágico às vezes se perder nos horizontes das avenidas, de volta pra casa. A dor também brada aflição e desespero ao julgado louco por encantar-se com coisas chatas. Talvez por achar-se velho, o chato torna-se algo mais interessante, pois traz sossego. Mas ele não sabe ainda como lidar com a dor. Sente-se um espelho refletindo a imagem daquela moça que atravessa as ruas sem encostar nos outros, e segue, anda, pois é o que pode fazer. Mas tem vontade de carrega-la de uma ponta à outra das cidades e deixa-la na porta de casa sã e salva. Não entende a própria vontade até perceber que odeia essa caminhada silenciosa rumo às palavras de despedida, e que odeia despedidas.
     
     O tempo volta, agora na memória do velho louco, tornando os passos um mero detalhe. Há horas atrás um casal de velhinhos os cumprimenta como conhecidos, no caminho para Wonderland. A senhorinha exclama com admiração “Mas que belo casal!”. “Talvez os limites do reino tenham se estendido para além da toca do coelho. Maravilhas assim nunca me aconteceram antes.” – olhando para Lua, ele diz a si mesmo em pensamento – “Mas ela é linda mesmo”. Ao chegarem na parte conhecida do reino, ele encanta-se com tudo o que ela faz. Quando cumprimenta os grandes felinos guardiões, quando pede permissão à mãe de um deles para pegar um recém-nascido no colo, quando bebe de um copo pequeno de água só a metade, quando se sente à vontade. Calma e sossego num abraço apertado e avistados naquele olhar mágico que faz o tempo parar por um tempo, que faz a vista enxergar somente à ela, e que emudece o mundo deixando audível apenas a voz de tom tão doce quanto o cheiro da moça dizer que esteve com saudades. E segue lembrando dos muitos abraços e das declarações feitas. Lembra do choro e das risadas vindas às vezes do nada, e de como se sentiu bem pelos dois. Sentiu-se confiável e confiante. Lembrou-se do rito do fogo, da ânsia e do sangue. Lembrou-se que o tempo passou e ninguém percebeu, dos planos feitos, da expectativa versos a realidade, da espontaneidade, felicidade. De tudo que houve, lembrou-se até chegar ao momento presente... silencioso, sozinho, cansado, aflito e triste. O loop do retorno.


Cartas da pessoa número três: O Velho Louco

     
     O velho louco é dotado de uma imaginação fantástica. É capaz de criar interações entre o que vê e imagina, alucinando com consciência e rindo como um louco, como é de se esperar de um louco. Avista um prédio de medianeiras enormes e imagina equações de fórmulas absurdas sendo feitas nelas. “(Em Wondeland) ‘tempo + momentos felizes = tempo/10² = vou chegar atrasado’, ‘tempo + 2 x momentos felizes = tempo/2 x 10² = não vou mais pra lá + 1 (quase) dorme aqui hoje?’, ‘tempo + 2 x momentos felizes + trabalho pra fazer = já são oito horas?!’.”

     
     Imaginou o prédio como uma imensa balança de libras e colocou, ao mesmo tempo, de um lado os valores dos resultados das equações de o quanto se sente bem e feliz ao lado dela (no mundo da Lua), e do outro colocou sua tristeza vã e chata ( :p ), para saber qual valia mais. Os moradores em seus apartamentos passaram por um grande susto. Logo chegou a impressa local para noticiar o fato ocorrido no dia 12/04/2014. Um prédio de mais de vinte andares tombou para o lado da felicidade. Ninguém saiu ferido e o prédio continua intacto. A empresa responsável pela construção do edifício irá reergue-lo essa semana. E o velho louco sorri.


(Pinguins no pais das maravilhas)

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