Se olham nos olhos e dão inicio a uma conversa sem palavras. Como num espelho, encaram-se fazendo gestos sutis e sincronizados. Arqueiam as sobrancelhas, mexem o canto da boa. Tudo muito simples, mas cheio de significados que dizem exatamente o que eles querem dizer um ao outro. Os olhares alternam um o do outro e a boca. Chegam mais perto, bem perto, bem perto e quase tocam as pontas dos narizes. Ele respira fundo o mesmo ar que ela acabou de expirar, com o peito agredido pelo coração e pelo cigarro. Ele sugere um beijo. Ela pensa virando o rosto um pouco pro lado, mas sem desviar o olhar, e volta. Aperta um pouco os olhos e se inclina lentamente um pouco mais para frente dessa vez, quase aceitando a sugestão, quase como quem quer fazer uma pergunta cheia de curiosidade, quase beijando, quase lá, quase sorrindo, quase beijando, quase, quase lá... Mas volta e se ajeita na cadeira. Ri de leve um riso meio debochado, mas sem deboche olha pro rapaz. Ainda sem dizer uma só palavra, diz que ele devia ter beijado antes se queria tanto. Bebe um gole de cerveja e canta o samba da roda da mesa ao lado. Ele fica suspenso no ar. Dá um trago no cigarro, relaxa as costas no encosto da cadeira e diz por uma telepatia falha:
- Te quero sempre, mas só quando me quiseres.
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