Chuva, noite, calçada da Bráz de Aguiar, mesa de um bar
requintado de Belém, cigarrilha, cerveja, amigos, conversa.
O cardiologista Dr. Vitor de Oliveira, 58 anos de idade,
relata aos seus amigos sobre um paciente que foi ao seu consultório há poucos
dias. Tratava-se de um jovem de 22 anos que reclamava de um forte aperto no peito e que estava ficando preocupado com a situação, pois ele havia visto
numa reportagem que é cada vez mais comum jovens com essa faixa etária
morrerem de infarto.
- Falei que era necessário fazermos uma bateria de exames
para que pudéssemos detectar e diagnosticar o problema, caso houvesse algum.
Ele concordou de cara, mas sabe como é, gente que vai se consultar e fica
falando e falando coisas da vida delas como se a gente se importasse, né?
(Risos). Começou a falar que ele nunca se alimentou direito exceto a vez em que
viajou pra... Pra onde mesmo? Esqueci... Hummm... – Tomou mais um gole de sua malzbier e antes que ela passasse inteira pela garganta,
lembrou-se do lugar – Ah! Natal. Porque tinha conhecido muitos vegetarianos por
lá, e como ele era praticamente o único que comia carne, ficava
encabulado de comer carne na frente deles. E também disse que
fumava bastante fazia 5 anos, mas que (essa foi engraçada), já fazia mais de
ano que tinha perdido a conta de quanto tempo ele fuma. Então
perguntei pra ele se ele bebia também. Ele disse que sim, e que fuma mais quando
está bebendo. Daí eu disse “Pronto! Tu és um sério candidato a ter várias
doenças, inclusive as do coração”. Ele riu e disse “Eu sei, Doutor. Eu sou um
boêmio”. Resumindo, mandei ele fazer os exames e me trazer os resultados
na outra semana, nessa que a gente tá agora. Ele me trouxe ontem. O exame de
sangue indica que os níveis de colesterol e de glicose dele estão normais.
Aparentemente ele não gosta de muito doce. Ele tinha me dito que toma café sem
açúcar.
- Café sem açúcar?! – Pergunta espantado o seu amigo
pediatra Dr. Maurício Alencar, que tem o espanto acompanhado pelos demais
sentados à mesa.
- Sem açúcar. Ele disse que lá na cidade onde ele estava...
Qual que era mesmo?
- Natal. – Respondeu o ornitólogo Dr. João Siqueira Bastos.
- Isso! Natal. Ele disse que lá em Natal, costumava tomar
café assim, sem açúcar, fumando cigarro e tocando violão com uma gaúcha que ele
conheceu por lá, e que ela fazia o mesmo.
- De repente foi daí que ele começou com esse negócio de
tomar café sem açúcar. – Diz o psicólogo Dr. Francisco Holanda – Ele devia
estar afim dela, viu ela tomando café assim desse jeito e quis acompanhar, de
repente pra puxar papo e, né?
- Não, não. – Respondeu o cardiologista – Ele disse que já
tinha esse hábito desde antes de viajar. Que começou a gostar mais de café
desde uma vez que ele tava com uma ex-namorada dele, parece, numa praça, tomando
café e fumando cigarro.
- Ai, ai... É assim mesmo. Só as mulheres e as guerras tem o poder de mudar
um homem desse jeito.
- Verdade. Enfim, continuando. O eletrocardiograma teve um resultado
um tanto peculiar. O coração dele bate muito forte, mas não tão rápido, pelo
contrário, quase para em alguns momentos. A princípio eu pensei ser daí a causa
das dores que ele sente, mas quando vi a radiografia... Deem uma olhada.
Assim que eles olham, ficam em silêncio. Eram todos ali
doutorados em suas áreas, mas ninguém conseguia dizer uma só palavra sobre o
que haviam visto naquele momento, naquele resultado de exame. Uns por não entenderem muito bem de radiografias, outros por não entenderem nada de radiografias.
- Não é má formação. Isso é uma cicatriz mesmo. – Disse o experiente
Dr. Vitor Fernando de Oliveira Coimbra, formado em medicina pela UFPA (Universidade
Federal do Pará), doutorado em cardiologia pela UNIFESP (Universidade Federal
de São Paulo) e que exerce a profissão há 30
anos – Eu já levei isso até pro Castro, que é ortopedista, e ele me disse que
isso não é possível, porque ele não tem nenhum sinal de lesão no tórax de nada
que pudesse ter causado o ferimento que causou essa cicatriz desse tamanho.
Naquela hora ninguém soube muito o quê dizer. Fizeram algumas piadas e já levados pelo álcool, o assunto foi se dispersando, deixando no
lugar gargalhadas descontraídas de senhores que só queriam relaxar um pouco depois de um dia inteiro de trabalho.
Na manhã seguinte, o doutor liga de seu consultório para o
paciente a fim de marcar outra consulta.
- Oi! Gostaria de falar com o Sr. Luís Conceição, por
gentileza.
- É ele mesmo. Quem tá falando?
- Oi, Luís! Aqui é o Dr. Oliveira, cardiologista. Viestes
anteontem aqui me deixar os resultados dos exames que te pedi, lembras?
- Ah! Sim! Lembro sim, doutor. Como o senhor está?
- Eu tô bem, rapaz. E tu?
- Só com aquelas dores que tinha dito.
- Sei. Escuta, tu podes vir aqui hoje no meu consultório pra
gente bater um papo sobre esses exames? Não te preocupa que não é nada sério.
Eu só tô curioso sobre umas coisas e queria que tu mesmo me dissesses. Pode
ser?
- Poxa, doutor. Mas eu não tenho dinheiro agora pra pagar
outra consulta com o senhor.
- Não. Fica tranquilo. Eu não vou cobrar por isso, por uma
conversa com o meu paciente.
- Ah, sim. Assim sim. Que horas então?
- Rapaz... Dá pra ti umas 15 pras 6 da tarde?
- Sim, sim.
- Tá ok. Vou lhe aguardar.
- Beleza!
Na sala de espera do consultório, um misto de apreensão e
nervosismo toma conta do jovem rapaz. As dores no peito parecem mais fortes
agora, mas isso se deve mais ao que ele está imaginando nesse momento sobre o
que pode estar acontecendo em outro lugar bem distante dali do que o quê o
doutor pode lhe dizer sobre seu coração. Pelo menos tanta imaginação faz com
que seus minutos de espera passem rapidamente.
Imerso em seus pensamentos enquanto esperava, o rapaz escuta um leve cantarolar feito por uma doce voz feminina, mas que de repente é
substituído por um emaranhado de sons indecifráveis.
- “Jaoquipode kanetrea. O doicator taepesnado”.
- ... Ah! Oi! Desculpa.
- Já pode entrar. O doutor tá esperando.
- Ah, sim. Obrigado.
- Nada.
Então o rapaz levanta e anda em direção à sala. Observa a
recepcionista pelos cantos dos olhos e percebe um caderninho de
palavras cruzadas que ela estava resolvendo atrás do balcão. Continua seguindo
para a sala ao final do corredor e pouco antes de entrar, escuta novamente o cantarolar
da recepcionista e sente um certo alívio. Pensa: “Isso ela faz melhor”.
Em frente à sala, o rapaz bate na porta duas vezes. Escuta a voz do
doutor vinda de dentro da sala: “Pode entrar”. Então ele abre porta. Sente no
rosto, na camisa e nos pés, um bafo gélido que sopra da sala e que tem cheiro
de luvas de látex. O alívio dado pela voz da recepcionista se vai nesse
momento, mas o tom amistoso do doutor causa um outro tipo de alívio.
- E aí? Tudo bom?
- Sim, sim.
- Senta aí. Puxa uma cadeira dessas.
Enquanto o rapaz se acostuma com o acento gelado da cadeira
estofada, o doutor abre uma gaveta, tira de dentro umas radiografias, levanta-se e as põe
contra um painel de luz na parede.
- Sim. Vejamos. Essa aqui da direita é de um rapaz assim da
mesma idade, mais ou menos, que a tua, que bebe e fuma também, e que tem mais
ou menos os mesmos hábitos alimentares que tu também. Essa da esquerda é a tua.
- Sim.
- Consegues perceber alguma diferença?
- Hummm... Não muita. Não entendo disso, mas dá pra ver que
tem diferença. Provavelmente eu sou mais estragado que ele. – Os dois riem, mas
rapidamente o médico prossegue.
- Pior que é justamente o contrário. Ele é bem mais
estragado que tu.
- Eita! Sério? Então ele fez muita força pra isso.
- Na verdade não seria muito difícil pra ninguém ser menos
saudável que tu, e isso é só uma das coisas que me chamaram atenção nos teus
exames.
- Como assim?
- Tua saúde é perfeita. Tu fumas, bebe, te alimentas
relativamente mal, mas tua saúde é a de alguém que não faz nenhuma dessas
coisas. Teus pulmões estão limpos. Claro que nem tanto, mas estão. Não parecem
ser de alguém que fuma há... Quanto tempo mesmo?
- Cinco ou seis anos, eu acho.
- Sim. Os exames de sangue também deram um resultado que eu
julgaria exemplar pra alguém com a tua idade.
- Nossa! Que bom! Que bom mesmo! Puxa! Fiquei muito feliz
agora, doutor. Já tava pensando que o senhor ia me dar uma notícia tipo “Tu
tens só três meses de vida. Aproveita! Tchau!”. Tipo isso assim, sabe? – Diz o
rapaz, rindo aliviado.
- Sei. No entanto, ainda tens aquelas dores no peito, não?
- Sim, tenho.
- Pois é. Nessas mesmas radiografias tem uma diferença no mínimo curiosa também.
- Pois é. Nessas mesmas radiografias tem uma diferença no mínimo curiosa também.
- Qual?
- Dá uma olhada. A pessoa que tirou essa aqui tem um coração perfeito. Bem formado, eu quero dizer. Com as formas que um coração deve ter. Já o
teu tem uma coisa bem em cima. Uma marca, como se fosse uma cicatriz bem
grande. É por causa disso que tu sentes essas dores. O tecido que forma uma cicatriz
é meio rígido, e ter uma tão grande no coração, não ficaria surpreso que tu tivesses essas dores, quando teu coração bate mais forte. O coração é um
músculo que não foi feito pra ser tão rígido, tão duro. Uma cicatriz dessas
dificulta e muito os teus batimentos cardíacos. A questão é: Como foi que tu
conseguiste ter uma cicatriz justo aí.
- ... Sim...
O doutor continua falando, mas o rapaz já não o escuta mais.
Agora ele só escuta um emaranhado de sons semelhante ao de quando a
recepcionista o chamou. Está dentro de si, procurando a resposta do porquê daquela cicatriz, e entra nesse estado introspectivo justamente por já ter uma boa
ideia do que se trata.
- ... “Eanotosk caranreodionage guiano asin aiema e”... Ei!
Estás me ouvindo?
Agora o rapaz só está pensando numa maneira de explicar para
o doutor o que é aquela cicatriz.
- Sim, doutor.
- Então. Eu tava dizendo que já mostrei essas radiografias
pra vários amigos meus outro dia e que...
- Eu sei o que foi isso, doutor.
- Sabe? Então, por favor, diga o que foi.
- Faca no peito.
- Hãn? Mas como? Tu levaste uma facada no peito, foi isso?
- Sim e não.
- ...
A central de ar faz um estalo e para. É o único som que
quebra, ironicamente, o silêncio de alguns segundos deixando o clima mais
silencioso ainda, enquanto o doutor aguarda uma resposta mais clara do rapaz,
que agora está com um sorriso nos lábios.
- A faca que fez isso não é feita de nenhum material físico.
Não é de ferro ou de aço, ou enfim. Ela é feita de desprezo, indiferença,
desamor. É diretamente proporcional aos sentimentos. Tipo: Se eu gosto muito de
alguém. Se eu tô apaixonado por alguém e não sou correspondido, quanto mais
apaixonado eu estiver, maior vai ser o tamanho da faca e do ferimento que ela
vai causar.
- Ok, ok. Vamos com calma. – E sentou-se em sua quente
poltrona de couro – Já que o exame de sangue que tu fizeste não apontou nada de
anormal, pelo contrário, apontou uma saúde exemplar (não sei como), e já que me
dissestes que és um boêmio assumido, quero que me respondas com toda sinceridade agora.
- Sim. Pode perguntar.
- Tu usas drogas?
Nada sobrou mais dentro da sala que as gargalhadas do jovem
rapaz, e que puderam ser ouvidas pela recepcionista, que teve sua concentração
tirada pelos risos e logo depois pelos próprios pensamentos, imaginando o que
estaria se passando dentro daquela sala.
- Não. Eu não uso drogas. – Aproveitando o resultado dos
exames.
- Então de onde tu tiras essa história, já?
- “Faca no peito” é só um termo, uma metáfora que eu uso pra tentar explicar essas coisas que a gente sente de vez em quando.
Pelo menos costumava ser só isso até o senhor me mostrar isso daí.
- Ma mas... Mas como pode?
- Não sei. É como se todo o mal que meus pulmões e figado sofreriam pelos meus períodos de fossa que tive, tivessem sido canalizados pro coração, ou pra faca que fez isso. Sei lá. Mesmo assim tenho orgulho disso. Essa é a fonte de toda a minha
inspiração. Na verdade é só uma das, mas é tão importante pra mim quanto as outras. Obrigado
por me mostrar isso, doutor. Fico muito agradecido, de verdade.
Levanta-se sorridente, aperta a mão do doutor e vai andando em direção à porta.
- Mas pera aí! Tu não vais tratar isso, rapaz?
O rapaz para em frente a porta, pensa e imagina qual seria o tratamento para uma cicatriz no coração. Então ele se vira e responde.
- Não, não. Acho que consigo viver bem com isso, apesar das dores e da rigidez do meu coração.
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