Qual é a lombra?

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A Inspiração


Chuva, noite, calçada da Bráz de Aguiar, mesa de um bar requintado de Belém, cigarrilha, cerveja, amigos, conversa.


O cardiologista Dr. Vitor de Oliveira, 58 anos de idade, relata aos seus amigos sobre um paciente que foi ao seu consultório há poucos dias. Tratava-se de um jovem de 22 anos que reclamava de um forte aperto no peito e que estava ficando preocupado com a situação, pois ele havia visto numa reportagem que é cada vez mais comum jovens com essa faixa etária morrerem de infarto.


- Falei que era necessário fazermos uma bateria de exames para que pudéssemos detectar e diagnosticar o problema, caso houvesse algum. Ele concordou de cara, mas sabe como é, gente que vai se consultar e fica falando e falando coisas da vida delas como se a gente se importasse, né? (Risos). Começou a falar que ele nunca se alimentou direito exceto a vez em que viajou pra... Pra onde mesmo? Esqueci... Hummm... – Tomou mais um gole de sua malzbier e antes que ela passasse inteira pela garganta, lembrou-se do lugar – Ah! Natal. Porque tinha conhecido muitos vegetarianos por lá, e como ele era praticamente o único que comia carne, ficava encabulado de comer carne na frente deles. E também disse que fumava bastante fazia 5 anos, mas que (essa foi engraçada), já fazia mais de ano que tinha perdido a conta de quanto tempo ele fuma. Então perguntei pra ele se ele bebia também. Ele disse que sim, e que fuma mais quando está bebendo. Daí eu disse “Pronto! Tu és um sério candidato a ter várias doenças, inclusive as do coração”. Ele riu e disse “Eu sei, Doutor. Eu sou um boêmio”. Resumindo, mandei ele fazer os exames e me trazer os resultados na outra semana, nessa que a gente tá agora. Ele me trouxe ontem. O exame de sangue indica que os níveis de colesterol e de glicose dele estão normais. Aparentemente ele não gosta de muito doce. Ele tinha me dito que toma café sem açúcar.

- Café sem açúcar?! – Pergunta espantado o seu amigo pediatra Dr. Maurício Alencar, que tem o espanto acompanhado pelos demais sentados à mesa.

- Sem açúcar. Ele disse que lá na cidade onde ele estava... Qual que era mesmo?

- Natal. – Respondeu o ornitólogo Dr. João Siqueira Bastos.

- Isso! Natal. Ele disse que lá em Natal, costumava tomar café assim, sem açúcar, fumando cigarro e tocando violão com uma gaúcha que ele conheceu por lá, e que ela fazia o mesmo.

- De repente foi daí que ele começou com esse negócio de tomar café sem açúcar. – Diz o psicólogo Dr. Francisco Holanda – Ele devia estar afim dela, viu ela tomando café assim desse jeito e quis acompanhar, de repente pra puxar papo e, né?

- Não, não. – Respondeu o cardiologista – Ele disse que já tinha esse hábito desde antes de viajar. Que começou a gostar mais de café desde uma vez que ele tava com uma ex-namorada dele, parece, numa praça, tomando café e fumando cigarro.

- Ai, ai... É assim mesmo. Só as mulheres e as guerras tem o poder de mudar um homem desse jeito.

- Verdade. Enfim, continuando. O eletrocardiograma teve um resultado um tanto peculiar. O coração dele bate muito forte, mas não tão rápido, pelo contrário, quase para em alguns momentos. A princípio eu pensei ser daí a causa das dores que ele sente, mas quando vi a radiografia... Deem uma olhada.


Assim que eles olham, ficam em silêncio. Eram todos ali doutorados em suas áreas, mas ninguém conseguia dizer uma só palavra sobre o que haviam visto naquele momento, naquele resultado de exame. Uns por não entenderem muito bem de radiografias, outros por não entenderem nada de radiografias.


- Não é má formação. Isso é uma cicatriz mesmo. – Disse o experiente Dr. Vitor Fernando de Oliveira Coimbra, formado em medicina pela UFPA (Universidade Federal do Pará), doutorado em cardiologia pela UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo) e que exerce a profissão há 30 anos – Eu já levei isso até pro Castro, que é ortopedista, e ele me disse que isso não é possível, porque ele não tem nenhum sinal de lesão no tórax de nada que pudesse ter causado o ferimento que causou essa cicatriz desse tamanho.


Naquela hora ninguém soube muito o quê dizer. Fizeram algumas piadas e já levados pelo álcool, o assunto foi se dispersando, deixando no lugar gargalhadas descontraídas de senhores que só queriam relaxar um pouco depois de um dia inteiro de trabalho.


Na manhã seguinte, o doutor liga de seu consultório para o paciente a fim de marcar outra consulta.


- Oi! Gostaria de falar com o Sr. Luís Conceição, por gentileza.

- É ele mesmo. Quem tá falando?

- Oi, Luís! Aqui é o Dr. Oliveira, cardiologista. Viestes anteontem aqui me deixar os resultados dos exames que te pedi, lembras?

- Ah! Sim! Lembro sim, doutor. Como o senhor está?

- Eu tô bem, rapaz. E tu?

- Só com aquelas dores que tinha dito.

- Sei. Escuta, tu podes vir aqui hoje no meu consultório pra gente bater um papo sobre esses exames? Não te preocupa que não é nada sério. Eu só tô curioso sobre umas coisas e queria que tu mesmo me dissesses. Pode ser?

- Poxa, doutor. Mas eu não tenho dinheiro agora pra pagar outra consulta com o senhor.

- Não. Fica tranquilo. Eu não vou cobrar por isso, por uma conversa com o meu paciente.

- Ah, sim. Assim sim. Que horas então?

- Rapaz... Dá pra ti umas 15 pras 6 da tarde?

- Sim, sim.

- Tá ok. Vou lhe aguardar.

- Beleza!


Na sala de espera do consultório, um misto de apreensão e nervosismo toma conta do jovem rapaz. As dores no peito parecem mais fortes agora, mas isso se deve mais ao que ele está imaginando nesse momento sobre o que pode estar acontecendo em outro lugar bem distante dali do que o quê o doutor pode lhe dizer sobre seu coração. Pelo menos tanta imaginação faz com que seus minutos de espera passem rapidamente.


Imerso em seus pensamentos enquanto esperava, o rapaz escuta um leve cantarolar feito por uma doce voz feminina, mas que de repente é substituído por um emaranhado de sons indecifráveis.


- “Jaoquipode kanetrea. O doicator taepesnado”.

- ... Ah! Oi! Desculpa.

- Já pode entrar. O doutor tá esperando.

- Ah, sim. Obrigado.

- Nada.


Então o rapaz levanta e anda em direção à sala. Observa a recepcionista pelos cantos dos olhos e percebe um caderninho de palavras cruzadas que ela estava resolvendo atrás do balcão. Continua seguindo para a sala ao final do corredor e pouco antes de entrar, escuta novamente o cantarolar da recepcionista e sente um certo alívio. Pensa: “Isso ela faz melhor”.


Em frente à sala, o rapaz bate na porta duas vezes. Escuta a voz do doutor vinda de dentro da sala: “Pode entrar”. Então ele abre porta. Sente no rosto, na camisa e nos pés, um bafo gélido que sopra da sala e que tem cheiro de luvas de látex. O alívio dado pela voz da recepcionista se vai nesse momento, mas o tom amistoso do doutor causa um outro tipo de alívio.


- E aí? Tudo bom?

- Sim, sim.

- Senta aí. Puxa uma cadeira dessas.


Enquanto o rapaz se acostuma com o acento gelado da cadeira estofada, o doutor abre uma gaveta, tira de dentro umas radiografias, levanta-se e as põe contra um painel de luz na parede.


- Sim. Vejamos. Essa aqui da direita é de um rapaz assim da mesma idade, mais ou menos, que a tua, que bebe e fuma também, e que tem mais ou menos os mesmos hábitos alimentares que tu também. Essa da esquerda é a tua.

- Sim.

- Consegues perceber alguma diferença?

- Hummm... Não muita. Não entendo disso, mas dá pra ver que tem diferença. Provavelmente eu sou mais estragado que ele. – Os dois riem, mas rapidamente o médico prossegue.

- Pior que é justamente o contrário. Ele é bem mais estragado que tu.

- Eita! Sério? Então ele fez muita força pra isso.

- Na verdade não seria muito difícil pra ninguém ser menos saudável que tu, e isso é só uma das coisas que me chamaram atenção nos teus exames.

- Como assim?

- Tua saúde é perfeita. Tu fumas, bebe, te alimentas relativamente mal, mas tua saúde é a de alguém que não faz nenhuma dessas coisas. Teus pulmões estão limpos. Claro que nem tanto, mas estão. Não parecem ser de alguém que fuma há... Quanto tempo mesmo?

- Cinco ou seis anos, eu acho.

- Sim. Os exames de sangue também deram um resultado que eu julgaria exemplar pra alguém com a tua idade.

- Nossa! Que bom! Que bom mesmo! Puxa! Fiquei muito feliz agora, doutor. Já tava pensando que o senhor ia me dar uma notícia tipo “Tu tens só três meses de vida. Aproveita! Tchau!”. Tipo isso assim, sabe? – Diz o rapaz, rindo aliviado.

- Sei. No entanto, ainda tens aquelas dores no peito, não?

- Sim, tenho.

- Pois é. Nessas mesmas radiografias tem uma diferença no mínimo curiosa também.

- Qual?

- Dá uma olhada. A pessoa que tirou essa aqui tem um coração perfeito. Bem formado, eu quero dizer. Com as formas que um coração deve ter. Já o teu tem uma coisa bem em cima. Uma marca, como se fosse uma cicatriz bem grande. É por causa disso que tu sentes essas dores. O tecido que forma uma cicatriz é meio rígido, e ter uma tão grande no coração, não ficaria surpreso que tu tivesses essas dores, quando teu coração bate mais forte. O coração é um músculo que não foi feito pra ser tão rígido, tão duro. Uma cicatriz dessas dificulta e muito os teus batimentos cardíacos. A questão é: Como foi que tu conseguiste ter uma cicatriz justo aí.

- ... Sim...


O doutor continua falando, mas o rapaz já não o escuta mais. Agora ele só escuta um emaranhado de sons semelhante ao de quando a recepcionista o chamou. Está dentro de si, procurando a resposta do porquê daquela cicatriz, e entra nesse estado introspectivo justamente por já ter uma boa ideia do que se trata.


- ... “Eanotosk caranreodionage guiano asin aiema e”... Ei! Estás me ouvindo?


Agora o rapaz só está pensando numa maneira de explicar para o doutor o que é aquela cicatriz.


- Sim, doutor.

- Então. Eu tava dizendo que já mostrei essas radiografias pra vários amigos meus outro dia e que...

- Eu sei o que foi isso, doutor.

- Sabe? Então, por favor, diga o que foi.

- Faca no peito.

- Hãn? Mas como? Tu levaste uma facada no peito, foi isso?

- Sim e não.

- ...


A central de ar faz um estalo e para. É o único som que quebra, ironicamente, o silêncio de alguns segundos deixando o clima mais silencioso ainda, enquanto o doutor aguarda uma resposta mais clara do rapaz, que agora está com um sorriso nos lábios.


- A faca que fez isso não é feita de nenhum material físico. Não é de ferro ou de aço, ou enfim. Ela é feita de desprezo, indiferença, desamor. É diretamente proporcional aos sentimentos. Tipo: Se eu gosto muito de alguém. Se eu tô apaixonado por alguém e não sou correspondido, quanto mais apaixonado eu estiver, maior vai ser o tamanho da faca e do ferimento que ela vai causar.

- Ok, ok. Vamos com calma. – E sentou-se em sua quente poltrona de couro – Já que o exame de sangue que tu fizeste não apontou nada de anormal, pelo contrário, apontou uma saúde exemplar (não sei como), e já que me dissestes que és um boêmio assumido, quero que me respondas com toda sinceridade agora.

- Sim. Pode perguntar.

- Tu usas drogas?


Nada sobrou mais dentro da sala que as gargalhadas do jovem rapaz, e que puderam ser ouvidas pela recepcionista, que teve sua concentração tirada pelos risos e logo depois pelos próprios pensamentos, imaginando o que estaria se passando dentro daquela sala.


- Não. Eu não uso drogas. – Aproveitando o resultado dos exames.

- Então de onde tu tiras essa história, já?

- “Faca no peito” é só um termo, uma metáfora que eu uso pra tentar explicar essas coisas que a gente sente de vez em quando. Pelo menos costumava ser só isso até o senhor me mostrar isso daí.

- Ma mas... Mas como pode?

- Não sei. É como se todo o mal que meus pulmões e figado sofreriam pelos meus períodos de fossa que tive, tivessem sido canalizados pro coração, ou pra faca que fez isso. Sei lá. Mesmo assim tenho orgulho disso. Essa é a fonte de toda a minha inspiração. Na verdade é só uma das, mas é tão importante pra mim quanto as outras. Obrigado por me mostrar isso, doutor. Fico muito agradecido, de verdade.


Levanta-se sorridente, aperta a mão do doutor e vai andando em direção à porta.


- Mas pera aí! Tu não vais tratar isso, rapaz?


O rapaz para em frente a porta, pensa e imagina qual seria o tratamento para uma cicatriz no coração. Então ele se vira e responde.


- Não, não. Acho que consigo viver bem com isso, apesar das dores e da rigidez do meu coração.

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