O Mundo Paralelo: Passárgada 4 Marias e o Núcleo da Vila.
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Com certeza “58” foi um dos dias mais belos desde que o
Pequeno Gafanhoto saiu das abas de sua cidade natal e foi morar na cidade onde
todo dia é Natal, explorar a vida e o mundo. Geralmente ele pensa que o dia só
acaba quando ele vai deitar-se para dormir e dorme, mas esse dia foi uma
exceção segura disso, pois até o seu sono, coisa quase totalmente desprezada
por ele, conseguiu ser tão bom que foi inserido como parte desse dia tão maravilhoso.
E que dia, hein? No caminho para finalmente chegar em casa, o Gafanhoto só
pensava em voltar para o que parecia ser um pedaço de paraíso em meio ao caos
tranquilo da cidade. E parecia ser paraíso aquele lugar não só pelo lugar, que
também era lindo, mas sim também pelas pessoas, pelas cinco mulheres que
transformavam o ambiente onde estivessem em uma coisa tão boa e tranquila de se
viver. Num sossego sem tamanho, numa calma de fazer, mesmo que sem que se
dessem conta disso, cada segundo, cada respiração, cada frase, cada movimento,
um poema, uma cena de cinema, um espetáculo.
As cinco mulheres eram: A Rainha Paz, que faz com que tudo o
que ela toque tenha um colorido hipnotizante como o dos ornamentos para as
orelhas que ela mesma produz, e que mesmo com sua sede pela boemia, consegue
conduzir qualquer situação com muita calma e serenidade. Ao seu lado está A
Cavaleira Delicada, com sua presença sutil e precisa. Suas palavras saem como
uma dança com espadas, na qual ela golpeia uma vez a cada elevação de seus
tons, sem cortar ou ferir o alvo, só encostando a ponta da espada no torso e
nas fontes de quem as escuta como se quisesse acariciar seus ouvintes. A
terceira era a preferida do Gafanhoto, A Deusa Brincalhona. Adorava vê-la
cantar e tocar, ouvir e participar das canções e das brincadeiras dela. Tinham
hábitos e gostos em comum, e viam os sons como formas e/ou frases de essencial
importância para a vida. Enxergava-a como uma deusa porque não conseguia ver de
outra forma que não sendo superpoderes a capacidade dela de se expressar e se
fazer entender tão bem em cada sílaba, a perspicácia que ela utilizava para
elaborar suas frases e brincadeiras mais engraçadas, e a memória e conhecimento
sobre coisas já quase extintas das mentes de muitos, mas que num gesto simples
ela nos faz lembrar com uma nostalgia gostosa, ou nos dá uma sensação de
primeira vez única, caso seja essa a ocasião ou não. A quarta era também muito
querida pelo Gafanhoto, A Colombina. Também adorava vê-la cantar e tocar as
canções que ela mesma fazia. Ficava maravilhado com o jeito dela de
expressar-se, mover-se, pois tudo que ela fazia era sempre muito teatral e
muito bonito. Nunca soube como poderia caber tanta doçura em uma pessoa só. Tinha
visões de flocos de açúcar saindo da boca dela enquanto ela falava sobre
qualquer assunto e via seus cabelos encaracolados como cachos de caramelo. A
quinta, A Dragonita, apesar do nome, era belíssima. De coloração negra e roxa,
sua pele tinha um tom alvo com sardas que combinava perfeitamente com suas
tatuagens. Com voz e presença bem marcantes, iluminava o ambiente como se a
cada vez que falasse, ou risse com aquela risada maior “do mundô”, ela também
soprasse pequenas labaredas onde seriam as vírgulas, os pontos finais ou de
interrogação.
Havia mais outras duas moças que também acompanhavam e participavam
de certa forma, das inúmeras cenas daquele espetáculo de vários espetáculos
simultâneos. Uma vestia o papel de Comandante do Fogo na guerra contra as
formigas do quintal. A outra, ainda abalada por ter caído em uma das armadilhas
das “formiguerreiras”, resumiu-se em passar o resto da tarde assistindo tudo
aquilo ao lado do Gafanhoto. Tínhamos então uma lasanha de beterraba sendo
preparada pela Rainha Paz e suas súditas para o almoço real, que acabou virando
o jantar real, uma dura batalha contra as formigas não cortadeiras em prol de
que elas não derrubassem a casa, uma Deusa ordenando que as folhas dos coqueiros
caíssem para que elas fossem converTidas em um pouco de privacidade na hora do
banho, e uma peça teatral na qual Colombina contracenava com um dos maiores
atores do mundo paralelo, O Coco Verde, trazido pelas mãos do Super-Herói Astronauta.
- O almoço (real) está servido! – anuncia A Rainha Paz. A
essa altura o Gafanhoto estava à altura de um cajueiro observando o pôr-do-sol
e acompanhando a melhora de saúde da moça que repousava na rede. Pobre moça.
Como se não bastece ter sido avariada quando caiu na armadilha, ainda foi
atingida pelo Coco Verde na cabeça. O Coco Verde fez papel de vilão naquela
tarde. Depois de atingir a moça, rachou-se e então sua água foi usada pela
Deusa Brincalhona numa de suas brincadeiras. Os dois se uniram e deram um banho
no Super-Herói Astronauta.
Quase sete da noite e todos almoçando.
Dragonina: É a melhor lasanha de beterraba do mundo!
Rainha Paz: Uai! Também deve ser a única lasanha de
beterraba do mundo.
Colombina: Gente! Mas vocês estão de parabéns, viu?
Cavaleira Delicada: Bá! Tá tri bom isso aqui!
Deusa Brincalhona: Eu acho que nada a ver isso aí. Tem que
divulgar essa receita pro resto do mundo então, né?
Dragonina: Do mundo...
E a conversa assim
seguia,
Entre garfadas e gargalhadas.
Com tons de poesia,
Página 58:
Um dos melhores dias
da minha vida.

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