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terça-feira, 21 de agosto de 2012

Achados e perdidos

Sessão de achados e perdidos: O poema e os bastidores.


#Parte 1


Um casal deitado em uma cama de solteiro, num quarto pequeno quase nos fundos da casa e que só tem uma janela que capta parcialmente o sol. Ela está dormindo, ele está assistindo e pensando em sorte e destino. Está escuro, pois já é noite, 19h30min. O tempo chuvoso fez com que escurecesse mais cedo. O rapaz olha em volta e não consegue ver nada que não esteja iluminado pela luz azul de seu computador. Olha para a moça e lembra os momentos antes de os dois pegarem no sono.


E no escuro do quarto
Só uma luz azul.
A música para,
Os corpos se abraçam
E o sono leva o tempo correndo,
Mas tudo sem atraso.
Como se dissesse:
‘Houve o que foi de ser’.
E que amanhã, espero, será.
Todas as coisas que eu quero querer
Pra vida inteira.


#Parte 2


No dia seguinte, os dois conversam pela internet. Falam de seus planos para os próximos dias, trocam alguns conhecimentos musicais, compartilham bandas e etc. A moça envia um texto para o rapaz, falando de um dia que passaram juntos e fizeram e experimentaram coisas que ainda não haviam feito. Ela cita várias coisas, inclusive a cadeira na qual o rapaz está sentado. O rapaz lê o texto e ri. Os dois comentam e conversam sobre o texto e o dia ao qual a moça se refere nele. Então o rapaz lembra mais detalhes daquele dia, e depois de uma série de devaneios ele atualiza seu status no Facebook com a frase: “Todas as coisas que eu quero querer pra vida inteira”.

Isso chama a atenção da moça e ela logo presume que a frase faz parte de um poema escrito pelo rapaz. Mal sabia ela que a tal frase surgiu de repente e que não fazia parte de poema algum, até o momento em que ela comenta o status do rapaz dizendo que quer ver o resto do que ela pensa ser um poema já escrito. Esse comentário serve de incentivo para o rapaz e então ele responde dizendo que é para ela esperar um instante. Ele pega um caderno velho que tem desde seus 16 anos, uma caneta que estava em uma estante cheia de livros, outros cadernos e instrumentos musicais de sua irmã, senta-se na cadeira da qual falava há pouco e que está com uma toalha branca em seu assento, e começa a escrever.


Todas as coisas que eu quero
Querer pra vida inteira.
Todas as coisas que eu quero
Dizer sem ser besteira.
Toda a seriedade de uma brincadeira.
Todas as utilidades de uma cadeira.
Que dispõe de um assento à altura dos teus joelhos
E te faz ficar com os olhos bem vermelhos.


Ele envia para a moça uma versão do poema em que ele junta os pensamentos que teve enquanto a assistia dormir, com os versos que acabara de escrever, invertendo a ordem das estrofes.


*Versão original:


Todas as coisas que eu quero
Querer pra vida inteira.
Todas as coisas que eu quero
Dizer sem ser besteira.
Toda a seriedade de uma brincadeira.
Todas as utilidades de uma cadeira.
Que dispõe de um assento à altura dos teus joelhos
E te faz ficar com os olhos bem vermelhos.

E no escuro do quarto,
Só uma luz azul.
A música para,
Os corpos se abraçam
E o sono leva o tempo correndo,
Mas tudo sem atraso.
Como se dissesse:
‘Houve o que foi de ser’.
E que amanhã, espero, será.
Todas as coisas que eu quero querer
Pra vida inteira.


(Tempos de tesouro de um caderno velho)

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